ONCOLOGIA VETERINÁRIA
ONCOLOGIA VETERINÁRIA

ENTREVISTA: DR. ALEXANDRE FIGUEIREDO

Dr Alexandre Figueiredo


            Para falar sobre ONCOLOGIA VETERINÁRIA entrevistamos um membro da Associação Brasileira de Oncologia Veterinária – ABROVET. Graduado em Medicina Veterinária pela Faculdade de Medicina Veterinária da Universidade Federal Fluminense (2008) e Mestrado em Clínica e Reprodução Animal pela mesma Universidade, em 2012, Dr. Alexandre Figueiredo possui pós-graduação em Oncologia Veterinária pelo Centro de Especialização Profissional Ltda. – Qualittas (2013) e tem ampla experiência na área de Medicina Veterinária com ênfase em Cirurgia Animal, atuando principalmente nos seguintes temas: Oncologia Veterinária e Criocirurgia.

 

Saúde e Inspeção Animal: A oncologia é uma das especialidades da medicina veterinária. Qual a área de atuação desta especialidade?

Dr. ALEXANDRE: A oncologia como um todo é a especialidade médica que estuda as neoplasias (ou tumores), benignas ou malignas, como eles se comportam biologicamente no organismo e como combatê-lo da melhor maneira possível. Desta forma é importante saber a diferença entre esses termos. Tumor ou neoplasia é qualquer nova formação celular que seja evidente, mas que não necessariamente é câncer. Normalmente, utilizamos os termos neoplasia benigna para os tumores que têm crescimento lento, são encapsulados e que não geram metástases e neoplasia maligna (câncer) para os tumores que têm crescimento rápido, são difusos e que apresentam potencial metastático. Metástase, por sua vez, é o fenômeno que ocorre com as neoplasias malignas que são capazes de desprender células tumorais na corrente sanguínea e fazer com que estas células se fixem em outros órgãos e se multipliquem neles. Essas novas tumorações são exatamente iguais ao tumor primário.

            A principal área de atuação da oncologia veterinária é a de pequenos animais, que inclui os cães e gatos. Entretanto, as áreas de animais selvagens e silvestres e de grandes animais também têm importância dentro da oncologia, porém os tratamentos ficam mais limitados pela falta de estudos mais amplos nestas espécies.

Saúde e Inspeção Animal: O câncer não é uma doença específica de uma espécie. Quais são as espécies mais acometidas e existe uma predisposição racial?

Dr. ALEXANDRE: Em se tratando de cães e gatos, os cães são mais acometidos do que os gatos. Já em relação à predisposição racial, a raça Boxer costuma apresentar com frequência tumores cutâneos e linfomas; raças de grande porte como o Dogue Alemão, São Bernardo e Rottweiler estão mais propensas a tumores ósseos; Beagle e Golden Retriever apresentam maior incidência de tumores da tireoide; Pinscher e Doberman apresentam com mais frequência o melanoma; Poodles costumam apresentar tumor em hipófise ou em glândula adrenal, o que leva a uma doença chamada hiperadrenocorticismo. Mas em geral todas as raças são acometidas.

Saúde e Inspeção Animal: Com o advento do avanço da indústria pet (alimentos, medicamentos e serviços) estes animais estão atingindo idades mais avançadas. Isto tem afetado os índices de câncer?

Dr. ALEXANDRE: O câncer, em sua grande maioria, é uma doença de animais adultos a idosos. Por este fato, podemos dizer que sim. Entretanto, a meu ver, o que tem aumentado os índices de câncer em animais, além da longevidade, é a atenção e o cuidado que os proprietários têm com seus animais, levando-os mais rapidamente ao veterinário quando percebem alguma alteração. Além disso, a existência de profissionais veterinários que atuam especificamente na área de oncologia, consequentemente, aumenta o diagnóstico e principalmente, a melhora da qualidade deste diagnóstico com exames mais precisos.oncologia veterinária

Saúde e Inspeção Animal: Como é feito o diagnóstico de câncer em um animal?

Dr. ALEXANDRE: O diagnóstico começa no histórico e anamnese do paciente, passa pelo exame físico e exames complementares. Os exames de imagem, como ultrassonografia, radiografia, tomografia computadorizada e ressonância magnética podem identificar uma massa em uma determinada região do corpo. Entretanto, o que vai concluir mesmo o diagnóstico em um paciente é o exame histopatológico, feito após a retirada cirúrgica de um fragmento, ou mesmo, toda a tumoração. Outro exame que pode ajudar a guiar o tratamento é a citologia, que não chega a ter 100% de eficácia em fechar o diagnóstico, mas já ajuda em diferenciar entre tumorações benignas, malignas (câncer) e processos inflamatórios.

Saúde e Inspeção Animal: Quais são os tratamentos oncológicos disponíveis na veterinária?

Dr. ALEXANDRE: Basicamente, os principais tratamentos disponíveis na medicina veterinária são: cirurgia, quimioterapia e radioterapia. Estas três modalidades podem ser usadas separadas ou em conjunto, desde que haja indicação para cada situação. O procedimento cirúrgico é, na grande maioria das vezes, o principal tratamento para o animal, pois pode promover a cura caso a tumoração tenha sido rapidamente diagnosticada e a cirurgia tenha sido feita de forma adequada, com margens cirúrgicas livres de células neoplásicas. Entretanto, há alguns tipos de câncer no quais a 1ª indicação de tratamento é a quimioterapia. Outras opções de tratamento disponíveis na medicina veterinária são a criocirurgia, eletroquimioterapia, eletroterapia e a terapia fotodinâmica.

Saúde e Inspeção Animal: Sabemos que o câncer pode afetar diversos órgãos e tecidos. Referente aos cães e gatos quais tipos de câncer costumam ocorrer com maior frequência?

Dr. ALEXANDRE: Em cães, os tumores de pele são os que apresentam maior frequência, sendo seguidos pelas tumorações de mama e as neoplasias do sistema hematopoiético (linfomas e leucemias principalmente). Já em gatos, os tumores mais comuns são os do sistema hematopoiético (principalmente as leucemias), seguido por tumores de pele.

quimioterapiaSaúde e Inspeção Animal: A quimioterapia traz para os cães e gatos os mesmos efeitos colaterais que afetam o ser humano?

Dr. ALEXANDRE: Sim. Entretanto, em medicina veterinária as doses utilizadas são menores do que em humanos, consequentemente, os efeitos colaterais também são menores e menos evidentes. Além disso, o uso de medicações que previnam esses efeitos colaterais já são administrados previamente, de forma que muitos cães e gatos nem chegam a apresentar esses sintomas. É importante ressaltar que esses efeitos colaterais são muito individuais e dependem do tipo de drogas quimioterápicas que estão sendo utilizadas. Os efeitos colaterais mais comuns são a baixa de imunidade, anemia, enjoo, diarreia e vômito. Os poodles, por exemplo, são mais sensíveis e podem apresentar queda de pelo. Já nos gatos, os bigodes podem cair. Mas nos dois casos, quando se encerra a quimioterapia, os pelos voltam a crescer.

Saúde e Inspeção Animal: Após o tratamento é necessário o monitoramento do animal? Com que frequência?

Dr. ALEXANDRE: Sim. Nos pacientes submetidos à quimioterapia, o monitoramento deve ser feito antes, durante e após o tratamento. A monitoração antes serve para se ter uma base de como está o organismo do animal, o quanto o câncer está ou não disseminado (metástases) e como estão as funções dos principais órgãos. Durante o tratamento a monitoração é importante para se avaliar o quanto a quimioterapia pode estar afetando o organismo do animal, se devemos interromper, adiar ou se podemos continuar com o protocolo quimioterápico. Já após o tratamento, tanto para os pacientes que foram submetidos apenas à cirurgia e/ou à quimioterapia, recomenda-se o monitoramento para saber se houve ou não recidiva do câncer. Normalmente, neste caso, o acompanhamento é feito a cada dois ou três meses, mas pode variar de acordo com cada paciente.

Saúde e Inspeção Animal: Sobre prevenção: há algo que os proprietários possam fazer para prevenir o câncer em seus animais? Existe uma idade para fazer exames preventivos ou para diagnóstico precoce?

Dr. ALEXANDRE: As prevenções são muito parecidas com as que devemos ter para conosco. Animais de pele pouco pigmentada ou despigmentada são mais suscetíveis a câncer de pele e, deste modo, deve-se evitar que fiquem expostos ao sol nos horários de 10:00 às 16:00h. Animais que convivem com proprietários fumantes acabam sendo fumantes passivos, ficando expostos às substâncias tóxicas do cigarro, que pode levar a câncer de pulmão, traqueia, cavidade nasal e outros. A castração precoce da fêmea, antes mesmo do primeiro cio, reduz o risco de câncer de mama para 0,5%; após o primeiro cio, para 8% e após o segundo cio, para 26%. No entanto, após o terceiro cio, já não há mais essa redução da possibilidade do animal apresentar um câncer de mama. As chamadas “vacinas anti-cio” (anticoncepcionais) não devem ser usadas, pois favorecem o aparecimento deste tipo de câncer. Já a castração do macho auxilia na prevenção de tumores perianais. Evitar que seu animal fique obeso também ajuda na prevenção, já que a obesidade é um dos fatores que predispõem ao aparecimento do câncer. Atividades físicas regulares ajudam a diminuir o estresse e a manter o organismo mais forte. Em relação à idade, recomendam-se exames preventivos, pelo fato do câncer geralmente ser uma doença de animais adultos a idosos. O ideal é que após os 5 anos de idade, o proprietário leve o seu pet ao veterinário uma vez por ano para realizar exames de rotina, como os de sangue e de imagem (ultrassonografia abdominal e radiografia torácica).

Saúde e Inspeção Animal: Há algum sinal que seja indicativo, que possa levar os proprietários a desconfiarem que um animal esteja com câncer?

Resposta: Sim. Se o animal apresentar qualquer um dos sinais abaixo, pode significar a presença de um câncer:

- massas anormais que persistem ou crescem;

- feridas que não cicatrizam;

- perda de peso ou de apetite;

- hemorragias por qualquer orifício corporal;

- odor forte ou desagradável;

- perda de apetite ou dificuldade de deglutir;

- intolerância ao exercício ou perda de força;

- claudicação (mancar) de forma persistente;

- dificuldade de respirar, urinar ou defecar;

- mudança de comportamento se explicação.

            Portanto, procure logo um médico veterinário e nos casos de diagnóstico de câncer, de preferência um oncologista, pois ele é o profissional mais indicado para escolher qual é o melhor tratamento para o seu animal. Lembre-se, quanto antes diagnosticarmos o problema, maiores serão as chances de sucesso no tratamento!

 

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